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O lugar das paixões na educação

Carlos da Fonseca Brandão organizou uma coletânea com o título deste post, com o subtítulo “uma abordagem teórica-metodológica”, pela editora Noa Harmonia (Nova Petrópolis, Rio Grande do Sul, 2011). Brandão, na Apresentação, assinala que as paixões não têm sido suficientemente exploradas no âmbito das ciências sociais e humanas, particularmente na Educação (Pedagogia). Para ele os capítulos da coletânea parecem, à primeira vista, muito específicos, mas elas “podem ser transformadas em questões muito amplas, de interesse de toda a sociedade”, isto porque são problemas para todos nós.Capítulos
  1. A prosa da dor: a aprendizagem de um instante preciso e violento da solidão; por Fernando Bárcena, p. 11-45.
  2. Histórica da educação e retórica: ethos e pathos como meios de prova; por Marcus Vinicius da Cunha, p. 46-95.
  3. 3. Sinta quem lê, ouve, vê, por Tarso Bonilha Mazzotti; p. 96-122.
  4. O homem e as paixões: sociedade e natureza; por Alonso Bezerra de Carvalho, p. 123-183.
  5. O controle das paixões nos processos de civilização; por Carlos da Fonseca Brandão, p. 184-218.

Resenha do Doutrinas pedagógicas, máquinas produtoras de litígios.

Autora: Laélia Portela Moreira
Educação e Filosofia Uberlândia, v. 25, n. 49, p. 331-336, jan./jun. 2011. ISSN 0102-6801


Resumo
Em mais de uma ocasião, e em variados escritos, Tarso Mazzotti enfatizou a importância do diálogo e do debate como parte constitutiva do fazer científico e demonstrou a importância da Teoria da Argumentação como ferramenta essencial ao exame das teorias e doutrinas pedagógicas. Podese seguramente identificar como algumas das principais características da filosofia da educação, praticada por este autor, o rigor na apresentação das idéias e construção dos argumentos, além do amplo espectro de temas que aborda. Seu último livro, Doutrinas pedagógicas: máquinas produtoras de litígio, é um testemunho da originalidade inerente ao seu pensamento, que focaliza, dessa feita, o exame de algumas doutrinas pedagógicas, as quais, a partir do século XVII, operam direta ou indiretamente nos discursos a respeito da educação escolar.

link para a publicação

http://www.seer.ufu.br/index.php/EducacaoFilosofia/article/view/13351/7640

Metodologia qualitativa versus quantitativa

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— Qual a diferença entre metodologia quantitativas e qualitativas?
— A diferença fundamental está na validação da inferência. Na quantitativa, a inferência válida atende os critérios de probabilidade estatística; na qualitativa, a validade decorre da plausabilidade: é provável que ocorra tal como descrito.
— Fiquei na mesma...
— A inferência é o procedimento que permite afirmar alguma coisa a respeito de eventos ou fenômenos. A forma geral mais divulgada é
O homem é mortal
Fulano é homwm
Logo, Fulano é mortal
— Mas isso é um silogismo!
— O silogismo é o nome grego para inferência. Como sei que “homem é mortal”?
— Por que todos morrem...
— Certo. Mas não conhecemos todos os homens que existiram e existirão, então seria melhor dizer que os que conhecemos até agora morreram ou morrerão. Seja como for, a premissa maior “homem é mortal” é uma afirmação, ou proposição, em que o sujeito é “homem” e o predicado nominal “é mortal”. Essa inferência sustenta-se na qualidade “mortal”, que julgamos ser uma propriedade do sujeito (homem). Não parece ser preciso quantificar ou verificar quantos são os casos de “mortal” para estabelecer aquela inferência plausível. Sabemos que somos mortais. Como sabemos? Está em nossa experiência coletiva. Nesse tipo de inferência não recorremos à contagem, nem aos cálculos de probabilidade para verificar se podemos generalizar o verificado para a população humana.
— Isso eu entendi; mas quando é preciso usar a contagem ou a estatística?
— Quanto uma
qualidade, medida de alguma maneira, não expressa imediatamente uma propriedade do sujeito (da frase, da premissa maior) ou quando for variável, quando pode ou não ocorrer.
— Um momento, quer dizer que se mede qualidade?
— Mede-se. Se a medida é adequada ou não é um tema importante para as pesquisas científicas.
Qualquer qualidade pode ser medida de alguma maneira. Por exemplo, quando dizemos Fulana é mais bonita do que Sicrana, usamos uma medida. Esta medida, por não ser análoga à uma escala de razão, é dita categorial, baseada em categorias, palavra de origem grega que tem o mesmo significado da latina predicado.
— Explique isso.
— Uma escala de razão ou proporção tem por base uma escala em que cada unidade é estável; cada número é perfeitamente proporcional a outro; parte de um zero definido como absoluto. É a que usamos no sistema métrico decimal, por exemplo. A medida categorial não tem essas propriedades, apenas diz que há tais e quais categorias, como “belo”, “menos belo” e “feio”, por exemplo.
— Tendo uma medida, pode-se fazer estatística...
— A medida determina qual estatística pode ser usada. Se for métrica, ou análoga à métrica, então podemos usar as estatísticas paramétricas; caso contrário, apenas as não-paramétricas. Por exemplo, os sistema de notas dos alunos ainda que utilize numerais não é paramétrico, é, quando muito, intervalar, ou seja tem intervalos iguais. Sendo assim, não se pode, rigorosamente, calcular a média das notas de um aluno ou do conjunto dos alunos, pois não é paramétrico. Pode-se contar quantos alunos obtiveram a notação 5, correspondente ao número que questões que acertou, para organizar uma escala de postos.
— Então a diferença não está na inferência, mas na medida?
— Está na inferência. A medida é a intensidade de uma qualidade que pode permitir ou não algum tipo de inferência estatística. Nas pesquisas ditas qualitativas infere-se sem recorrer aos procedimentos estatísticos, mesmo assim utilizam algum tipo de medida.
— Como assim?
— A medida, nas pesquisas ditas qualitativas, referem-se a certos aspectos da realidade, que são as qualidades que variam. Essa variação, no geral categorial, é investigada para se saber se ela é ou não relevante. Por exemplo, seria relevante o sexo do aluno quanto ao seu sucesso escolar? O sexo do aluno é algo dado, mas, em nossas sociedades, há normas de comportamento consideradas próprias dos homens e das mulheres. Então a questão é outra: o gênero dos alunos determina seu sucesso escolar? O que se está supondo? Que o gênero, ou os comportamentos consideradas corretos segundo o sexo em cada cultura, tem algum papel no fracasso dos alunos, por exemplo. A inferência é: uma vez que gênero define o lugar social, então o gênero do aluno deve determinar seu lugar na escola (sucesso ou fracasso). Nesse nível de análise não temos como saber se é assim ou não, sendo preciso realizar investigações que mostrem se aquela inferência mantém-se. A qualidade “gênero” varia segundo as diversas culturas, ela variaria nas escolas? Como saber? Por meio de pesquisas com as pessoas que trabalham e estudam nas escolas. Elas dirão se o gênero determina o fracasso ou o sucesso.
— Mas as pessoas dizem o que querem...
— É verdade. Por isso é preciso planejar uma pesquisa que permita verificar o que dizem ser o caso. Esse planejamento é o de uma pesquisa qualitativa, pois visa estabelecer se uma certa qualidade apresenta-se como algo perfeitamente definido, se é ambígua, se é dispersiva ou o que for. A pesquisa qualitativa tem por objetivo estabelecer qual a qualidade relevante em certos contextos. Uma vez estabelecida a qualidade e suas variações pode-se obter uma medida. Essa medida, se for uma escala de razão, o que é raríssimo em todas a ciências, então uma pesquisa estatística paramétrica poderá ser conduzida. Se não for uma escala de razão, pode-se utilizar as estatísticas não-paramétricas.
— Então não há uma diferença completa entre essas metodologias, pois na qualitativa busca-se determinar as qualidades que depois podem ser pesquisadas usando as metodologias quantitativas...
— Exatamente. Se o silogismo ou inferência for composto por enunciados que apresentam qualidades duvidosas, então é preciso verificar o caráter dessas qualidades, se elas são efetivamente diferentes, se não são uma variação de uma qualidade mais ampla, bem como se as variações são categoriais, ordinais, escalar ou se podem ser postas em uma escala de razão. Realizada essa tarefa, é factível uma pesquisa organizada em torno de modelos probabilísticos, como as estatísticas

Construtivismo 2

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Rigorosamente não é adequado utilizar o termo “construtivismo” para todo e qualquer tipo de conhecimento, uma vez que apenas os formais, os das lógicas e matemáticas, são construtivos. Nos conhecimentos formais há um encadeamento de enunciados que constituem um “edifício” conceitual. Não é factível aprender, por exemplo, funções sem antes dominar a teoria dos números e a geometria, uma vez que elas dependem destes conhecimentos.
No caso das demais ciências, tanto as naturais quanto as humanas, bem como os conhecimentos comuns (senso comum), o procedimento é reconstrutivo. Uma vez dito que há um fenômeno, o qual é definido pelo que se diz a seu respeito, o processo de conhecer visa reconstruir o verificado para o explicar. Para isso, os modelos ou metáforas permitem comparar o que se diz ser o fenômeno a conhecer com algo conhecido, transferindo-se significados de um para o outro. Uma vez estabelecidos os significados que se julga pertinentes à novidade, procura-se verificar se eles são efetivamente adequados ao que se apresenta. Reconstrói-se o fenômeno, se esse procedimento mostrar que a reconstituição é pertinente, então se diz que se obteve uma explicação.
A explicação, em seguida, pode ser apresentada como um encadeamento lógico, silogístico. Essa forma de apresentação tem por objetivo ensinar aos demais o que foi estabelecido por meio da reconstrução do fenômeno.
Assim, não parece correto utilizar a noção “construção social de conhecimentos” quando não se tratar de conhecimentos formais. O correto seria dizer “constituição social de conhecimentos”, pois assim se evitaria uma analogia imprópria como os processos próprios dos conhecimentos formais e os demais, que são reconstrutivos.

Silogismo sujo

Luiz Fernando Veríssimo publicou em O Globo de hoje sua opinião que tem por título “silogismo sujo”. Transcrevo-o abaixo, com algumas observações de minha autoria. O texto de Veríssimo é cômico, as observações não são.

Silogismos, nos diz o dicionário, é uma dedução pela qual duas premissas levam a uma terceira, ou a uma conclusão lógica. Por exemplo: todo homem é mortal, eu sou homem, logo tchau. O dicionário enumera vários tipos de silogismos, mas não inclui o que pode chamar de silogismo sujo —ou a dedução lógica a que leva a uma conclusão imoral, ou pervertida. Exemplo: se não fosse a influência da cultural negra a civilização ocidental seria muito mais sem graça —para não falar em sem ritmo e sem colorido— do que é, logo foi bom existirem a escravatura e a diáspora forçada de negros da África. Outro exemplo, ainda pior: é inimaginável a cultura americana se a contribuição de intelectuais e artistas judeus expulsos da Europa pelo fascismo, foram os nazistas que os expulsaram, logo o fascismo não foi tão ruim assim. (Ninguém faz esse tipo de dedução a sério, mas há algo de silogismo sujo na defesa que se ouve de governos fortes, ou da ordem como a principal virtude de uma sociedade, mesmo com o sacrifício de direitos e liberdades. Há um silogismo sujo à espreita sempre que se procura justificar os excessos de um regime repressivo com supostas realizações do regime, em repetidas tentativas de rescrever ou absolver o passado. Como no Brasil.)
A diáspora africana nos deu o samba, o jazz e todos os ritmos caribenhos, certo. O fascismo, o comunismo e outros ismos persecutórios mandaram grandes cabeças e talentos para as Américas. Basta lembrar o caso dos Estados Unidos, onde gente como Saul Steinberg, Billy Wilder e Vladimir Nobokov, para citar poucos, não teria tido a experiência do exílio e da realização artística do desterro se não tivesse que fugir de Hitler, de Mussolini e dos bolcheviques. Mas, em vez da racionalização amora de um silogismo sujo para conter esse paradoxo, deve-se pensar nele como o efeito colateral da grande desarrumação da História. A História é explosiva, as explosões acabam com qualquer ideia de lógica ou simetria, logo vá entender.

Observações
  • 1. Todo homem é mortal; eu sou homem; logo tchau. A conclusão decorre das premissas? Implicitamente, sim; e é cômica. Não explicitamente, porque “ser mortal” não implica estar morto ou morrendo imediatamente, o que justificaria o adeus (tchau).

  • 2. O cômico “silogismo sujo” foi inicialmente exposto por Aristóteles em suas Refutações Sofísticas. São erros lógicos. Para Aristóteles há dois tipos desses erros: as falácias, erros não intencionais; e os sofismas, erros intencionais para iludir os outros. Os silogismos sujos seriam falácias ou sofismas? Veríssimo evita essa classificação para manter o cômico.

  • 3. Não se pode confundir fascismo com nazismo, pois são ideologias que se sustentam em premissas diferentes. A doutrina fascista pode ser resumida no slogan “Tudo para o Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado”. Mussolini afirmava que o Estado cria a nação, não o inverso. Essa doutrina sustenta-se na noção de “identidade nacional”, de “caráter nacional”, que o Estado forja, produz, tornando cada pessoa nascida em seu território, independente de sua origem familiar, um membro da “comunidade nacional”. O fascismo opunha-se ativamente ao liberalismo político e econômico, que afirma a precedência das liberdades individuais; e aos socialistas que pretendiam realizar uma revolução social para modificar as relações econômicas.

  • 4. O nazismo é o nome abreviado da corrente política nacional-socialismo, cujo partido denominava-se Partido Nacional Socialista Alemão dos Trabalhadores. A diretiva política central do programa desse partido afirma que só podem ser cidadãos alemães os que tenham “sangue alemão”, logo os judeus não podem ser cidadãos alemães, assim como os ciganos e outros. Os não alemães poderiam viver na Alemanha como hóspedes, submetendo-se à legislação para estrangeiros. Além disso, defendiam ser preciso impedir novas migrações de estrangeiros.

  • 5. O nazismo compartilha a concepção fascista de Estado, acrescentando a “raça” como seu fundamento. Assim a “raça” alemã precede o seu Estado, mas este está corrompido pela presença de outras raças, logo precisa passar por uma faxina que o limpe das raças inferiores e pessoas com desvios (homossexuais e outros); o mesmo que limpeza étnica.

  • 6. Em suma, as premissas dos argumentos fascista e nazista são diferentes. Para o fascismo, o Estado cria a nação; para o nazismo, a nação, produzida pela “terra e sangue” (raça), produz o Estado. Para o nazismo a mistura de raças enfraquece o Estado; para o fascismo, as distorções pessoais devem ser punidas para tornar o Estado superior e melhor, sem considerar, em princípio, a “raça”. Ambas as doutrinas confluem para a afirmação de o Estado ser o autor da vida social, e ele não pode ser democrático. Ambas as correntes opõem-se ao liberalismo e ao socialismo. Contra o primeiro, por afirmar que o Estado resulta das disputas pelos interesses particulares; contra o segundo, por julgar que a classe dos trabalhadores assalariados (proletariados) representa o futuro da vida social.

Construtivismo

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Construtivismo, refere-se à noção de que os conhecimentos resultam de operações mentais, ou juízos, ou da faculdade de julgar. Emmanuel Kant (1724-1804) propôs que a faculdade de julgar teórica, ou pura, apóia-se em juízos sintéticos a priori de espaço e de tempo. Desde então há uma controvérsia acerca da realidade desses juízos, bem como a respeito de seu poder explicativo. Nesta controvérsia encontram-se duas posições: a que sustenta o inatismo e a que o nega. Entre as duas posições há uma terceira, devida a Jean Piaget, para quem o espaço e o tempo não são a priori, e que o aspecto inato são os atos instintivos, a partir dos quais se constituem os raciocínios.

O construtivismo proposto por Jean Piaget (1896-1980) considera que "a obrigação formal de transcender sem cessar os sistemas já construídos para assegurar a não-contradição é convergente com a tendência genética de ultrapassar, sem cessar, as construções já acabadas para preencher as lacunas” (Études d’épistemologie génétique, vol. 14, p. 324). Genético, aqui, significa a gênese de formas cognitivas, não hereditariedade. Dessa maneira, os esquemas e estruturas cognitivas do sujeito-do-conhecimento [coletivo de cientistas e/ou coletivo de leigos] são permanentemente questionadas no processo de conhecer. Este processo é essencialmente construtivo, à semelhança da posição kantiana, mas diverge desta em um aspecto central: a construção cognitiva não se refere apenas aos entes lógico-matemáticos, mas aos processos de assimilação de obstáculos, ou objetos, postos para os sujeitos do conhecimento.
O construtivismo proposto por Piaget é, então, um
construtivismo genético, ou seja, para ele a função cognitiva é a mesma em qualquer humano e se caracteriza pelas atividades cognitivas de assimilação e acomodação que realizam a adaptação cognitiva dos objetos [obstáculos cognitivos]. Esta adaptação se faz por meio de esquemas e/ou estruturas, entre os quais as da matemática e da lógica —segundo as necessidades sociais ou históricas postas ao sujeito-do-conhecimento. Assim sendo, não há diferença funcional entre o senso comum e o senso científico, mas diferenciações estruturais, uma vez que o último requer o rigor historicamente desenvolvido em uma ciência particular. Este rigor, por sua vez, encontra-se expresso na metodologia de investigação científica, a qual se caracteriza por ser uma lógica e uma epistemologia aplicadas (Piaget, 1967, p. 3 e seguintes).
O ponto de vista construtivista genético tem muitos defensores, entre eles, Raymond Boudon. Este autor há tempos vem apresentando trabalhos criticam diversas correntes das ciências do homem (nomenclatura francesa), particularmente da sociologia, apresentando uma teoria construtivista genética do conhecimento. Para Boudon não há diferença essencial —funcional ou dos mecanismos— entre o senso comum e o científico, mas diversidade quanto ao rigor nas argumentações, tal como em Piaget. Para ele, “os mecanismos responsáveis pela formação das crenças coletivas normativas não são diferentes, em princípio, dos mecanismos que geram crenças colectivas ‘positivas’” [as da ciência] (Boudon, 1998, p. 31). Como na teoria proposta por Piaget, as “crenças ‘positivas’”, as que alcançam algum grau de validação, diferem das demais por sua
consistência argumentativa. As crenças são justificadas ou por meio de argumentos mais sociocentrados, no caso do senso comum, ou menos sociocentrados, no caso das ciências, sendo que as falácias e outros enganos argumentativos ocorrem em ambas as condições (cf., Boudon, 1990; 1998).
Posição semelhante é defendida por Lakoff e Johnson (1981) e Johson (1990), quando este afirma, por exemplo, “I do not wish to deny the importance of
formal structures, formal systems, or logical operations. I do not, however, think that they constitute God’s-Eye-Rationality as atemporal, universal structures; instead, formal systems with their peculiar logical properties and relations are possible forms for ordering symbols. Many of their properties and relations are simply formalizations of experiential patterns by means of wich we organize our experience and understanding. Although we can more or less sucessfully abstract form particular empirical contents in framing a formal system (and in mathematics do it quite thoroughly), it does not follow that inferential structures and logical connectives of the system are therefore ‘pure’, ‘noempirical’, ‘transcendent’ patterns. […] I want to suggest that image schemata constrain inferences (and thus reasoning) in certain basic and important ways. They can do this because they have definite internal structure that can be figuratively extended to structure our understanding o formal relations among concepts and propositions. It is in this special, non-Objectivist sense only that image schemata can be called “propositional” (= continous patterns with sufficient internal structure to constrain inferences). Because schemata are so central to meaning structure, they influence the ways in which we can make sense of things and reason about them” (p. 38).
O construtivismo, na perspectiva apresentada, considera que o fato de o conhecimento ser construído não implica nem solipsismo, nem relativismo radical, uma vez o problema de sua verdade é posto para o público, ou seja, para o coletivo de conhecedores —sejam eles leigos ou cientistas. Assim sendo, a correção argumentativa desenvolvida na história da filosofia e da ciência por meio da exposição e crítica das falácias e sofismas tem valor tanto para a construção do conhecimento científico quanto para a investigação policial, judicial, e, em certa medida, nas disputas da vida cotidiana, o que permite dizer que há um certo progresso, ou aperfeiçoamento, nas argumentações usuais, ou do senso comum. Em qualquer dos casos, requer-se o rigor posto nas condições sociais, como já anotara Aristóteles (
cf., Ética Nicomaquéia, 1098 a).
O
construtivismo social, que atualmente tem grande difusão entre os pesquisadores da Educação, toma por base a fenomenologia para sustentar que a pesquisa deve considerar as intenções dos atores sociais e o pesquisador aproximar-se dos grupos sociais colocando “entre parênteses” suas crenças e valores. Isto porque, a realidade é múltipla e o pesquisador, dizem Lincoln e Guba, “quer iniciar suas transações como os respondentes do modo mais neutro possível” (apud Alves-Mazzotti e Gewandsznajder, 1998, p. 133). Para os construtivistas sociais a multiplicidade de interpretações possíveis de algum “objeto”, todas socialmente justificáveis, impede sua validação, pois as “realidades existem sob forma de múltiplas construções mentais, locais e específicas, fundadas na experiência social de quem as formula” (idem, ibidem). O construtivismo social sustenta o relativismo radical, ou cepticismo, ou ainda pirronismo, de longa tradição na filosofia.
O
construtivismo genético é incompatível com o construtivismo social, uma vez que considera factível o conhecimento objetivo do mundo. Este conhecimento, entretanto, não é uma representação especular do real, mas a melhor aproximação possível em um dado momento.
Para o
construtivismo genético uma das evidências da qualidade da teoria é sua efetividade, ou seja, ela é capaz de orientar as ações dos conhecedores de maneira a estabelecer alguma transformação, ou mudança, no real. Além disso, é preciso considerar que as teorias, enquanto formalizações, são passíveis de análise argumentativa e lógica, que ou mostrem ou demonstrem a qualidade de seus enunciados, os quais são formas de inferências (antecipações). As avaliações que ou mostrem ou demonstrem erros ou enganos nos argumentos devem eliminar aqueles argumentos falsos, ou não-válidos. Por exemplo, caso ocorra uma petição de princípio ou sofismas na argumentação teórica, esta deve ser posta sob suspeição, uma vez que aqueles erros implicam relações ou impróprias ou falsas.
Para o
construvismo social, os argumentos e enunciados acerca do real não são passíveis de avaliação nem por critérios próprios da teoria da argumentação, nem pelos das diversas lógicas, pois são a expressão de um percepção dos atores envolvidos na pesquisa ou investigação. De fato, para o construtivismo social, só é possível expressar o real por meio de uma interpretação pessoal com a qual os demais podem concordar ou não, mas isto é irrelevante, uma vez que não há critério fundacional que permita dizer qual das interpretações é mais correta. A negação do empirismo (no geral denominado “positivismo”) pelo construtivismo social assume, implicitamente, a tese empiricista da identidade entre enunciados e o real como único critério para o estabelecimento de teorias válidas. Como, de fato, a tese empirista é imprópria, então não há possibilidade de conhecimento válido, dizem os construtivistas sociais, desconsiderando qualquer outra alternativa construtiva (cf., entre outros, Boudon, 1990, p, 129 e seguintes; Boudon, 1998).
Para o construtivismo genético a relação entre a teoria, ou modelos, e o ‘real’ é o de uma aproximação que tem sua validade demonstrável pelos mais diversos meios, entre eles os da força argumentativa e da eficácia (eficiência e efetividade). No entanto, para esta posição, não há como requerer nem a
verdade absoluta (em si e por si) nem a impossibilidade de alguma conhecimento significativo do mundo, rejeitando, ao mesmo tempo, o pirronismo e o idealismo, bem como a filosofia de Kant, quanto o de Hegel.

Referências

ALVES-MAZZOTTI, Alda Judith e GEWANDSZNAJDER, Fernando. O Método nas Ciências Naturais e Sociais. Pesquisa Quantitativa e Qualitativa. S. Paulo: Pioneira, 1998 (1ª edição; 1999, 2ª edição).
BOUDON, Raymond.
L’art de se persuader des idées douteuses, fragiles ou fausses. Paris: Fayard, 1990.
O Justo e o Verdadeiro. Estudos Sobre a Objectividade dos Valores e do Conhecimento. Trad.: Maria José Figueiredo. Lisboa: Instituto Piaget, 1998. (Le Juste et le  vrai. Libraire Arth¡eme Fayard, 1995).
JONHNSON, Mark.
The Body in the Mind. The Bodily Basis of Meaning, Imagination, and Reason. Chicago: The University of Chicago Press, 1987 (1990, paperback edition).
LAKOFF, George e JOHNSON, Mark.
Metaphors We Live By. Chicago: The University of Chicago Press, 1980 (1981, paperback edition)
PIAGET, Jean e BETH, E. W..
Épistémologie mathématique et psychologie. Essai sur les relations entre la logique formelle et la pensée réelle. Paris: Presses Universitaires de France, 1961 (Études d’épistémologie génétique, XIV).
— l'Épistémologie et ses variétés.
Encyclopédie de la Pléiade. Logique et connaissance scientifique. Paris: Gallimard, 1967.

A natureza é mulher

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Esta placa reproduz uma frase da ex-ministra do Meio-ambiente, Marina Silva, que reificou a mulher; e humaniza a natureza. A qualidade comum à mulher e à natureza é sua “estrutura”, nomenclatura imprópria para designar “essência”, comportamental ou de ação: a mulher e a natureza “não sabe se defender”, portanto precisa de um defensor (os ambientalistas seria como os machos da espécie que seriam capazes de se defender?); porém elas se vingam. A vingança não é uma defesa? Não para Marina Silva, é algo ainda pior: aguarda o momento oportuno para destruir seu agressor.

Platão (Sócrates)


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Danilo Marcondes, em seu Iniciação à História da Filosofia de Platão a Wittgenstein (Zahar), apresenta a posição de Platão (Sócrates). Fiel ao filósofo, mostra que há um “abismo” entre o inteligível e o mundo imediato, concreto, real.

O inteligível divide-se em duas instâncias: a da Geometria e o
noûs/noiseis. A noesis encontra-se no espírito, não se as aprende e nem se as ensina, recorda-se (verdade = aletheia; άλήθεια: não esquecimento, lembrança, evidente), conforme se lê na Alegoria (mito) da caverna; bem como o diálogo entre o jovem escravo e Sócrates em Menon (Menone). Ela é uma qualidade dos dialetas (dos verdadeiros dialéticos). Os objetos ou entes Matemáticos são conhecidos pelos geômetras, ainda têm aspectos empíricos, mas não são sensíveis: dianoia (δινοια), que é a qualidade intelectual dos geômetras.
O real (
tópos koratos) também se divide em dois: o mundo sensível (coisas naturais e artificiais): imperfeito, mutável, perecível; e, os conhecimentos das ciências da natureza.
O mundo sensível é apreendido pela imaginação/visão (
eikasia εικασια), representação, reflexo, sombra da ideia (forma, noeisis): doxa (δόξα), que é a qualidade do homem comum, do senso comum (opinião, doxa) que não conhece a ideai (forma, noeisis νόησις, intuição), apenas sua imagem, sua sombra. Atadas no empírico são mais elaborados, mas também mutáveis, imperfeitos, dependentes do sensível: pistis Πίστις; latim: fides (fé, crença), que é a qualidade dos cientistas naturais. Há, assim, um abismo entre os conhecimentos sensíveis e a intuição; não há passagem do conhecimento empírico para a ideia (forma, intuição).

Problema:

Se há um abismo/separação entre a
doxa e a noêsis, então o conhecimento verdadeiro não tem origem no sensível, logo não há etapas ou desenvolvimento da ciência/conhecimento. Ensinar é fazer recordar o que se encontra na alma (maiêutica). Isso significa que Marcondes interpreta Platão segundo uma teoria de desenvolvimento? Seria correto afirmar que, em Platão, é possível passar do conhecimento empírico à intuição (noeisis) verdadeira? Não seria o inverso, da intuição apreendemos a verdade da aparência (fenômeno)?

Caso se admita a posição de Platão, então há um problema fundamental: a prática e a teoria não são conciliáveis. Como, então, sustentar a possibilidade de uma teoria (verdade) da prática? Se as ciências (naturais) são crenças, então não são diferentes das crenças em geral?

Além disso, não é possível ensinar o inteligível, como atesta o diálogo
Menon, por exemplo.

Afirmar ser possível saltar o abismo por meio da dialética é um truque argumentativo. Esse saltar sobre o abismo foi tentado por Kant, mas não resolve o problema.

Platão entifica os conhecimentos nas pessoas, nos homens, dos quais alguns são filósofos outros nunca chegarão a ser, pois não contemplaram a verdade no mundo das ideias. Curiosamente, muitas são as doutrinas pedagógicas que reivindicam a filosofia de Platão, esquecendo que nela a educação é impossível.

Sou tema de uma dissertação!



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Inesperado:.meus trabalhos foram tema de uma dissertação de Mestrado em Educação. Orientador: Ralph Ings Bannel, da PUC-RJ; orientando: Marcos José Gomes Cristovão. Comissão de Exame: Renato José de Oliveira e Paulo Fernando Carneiro de Andrade. Conheço Ralph e Renato, mas não os dois outros. A defesa ocorreu em 18 de Junho de 2009, mas não fui informado.
Fiquei lisonjeado, claro, ao mesmo tempo perplexo. O exame de meus trabalhos parece bem desenvolvido, com alguns enganos, perfeitamente justificáveis, provavelmente de minha responsabilidade. É provável que eu não tenha sido suficientemente explícito, o que impediu a compreensão do que eu disse.
Reproduzi, abaixo, o resumo da dissertação, bem como a ligação para a obter no sítio “domínio público”.

CRISTOVÃO, Marcos José Gomes; BANNEL, Ralph Ings.
A perspectiva de Tarso Mazzotti sobre o uso da argumentação e da análise retórica para o desenvolvimento, a crítica e a compreensão das teorias pedagógicas. Rio de Janeiro, 2009. 73 p. Dissertação de Mestrado – Departamento de Educação, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=165447

Resumo

Esta dissertação tem como objetivo descrever e analisar o uso da argumentação e da análise retórica para o desenvolvimento, para a crítica e para a compreensão das teorias pedagógicas, sob a perspectiva de Tarso Mazzotti. Para isto, realizamos uma pesquisa bibliográfica a partir das obras deste filósofo da educação nas quais encontramos suas principais idéias acerca do uso da argumentação e da análise retórica. Logo, consideramos desde o capítulo “Estatuto de cientificidade da pedagogia”, publicado pela primeira vez em 1996, até (inclusive) a publicação, em 2008, do livro “Doutrinas pedagógicas, máquinas produtoras de litígios”. Enquanto o primeiro capítulo desta dissertação descreve as referidas idéias, o segundo capítulo analisa três pontos que permeiam as idéias apresentadas no capítulo anterior: a organização das teorias pedagógicas em torno de metáforas, o processo de validação das teorias pedagógicas, e a função e os limites da análise retórica aplicada às teorias pedagógicas. Na conclusão, convencidos de que o objetivo desta pesquisa tenha sido alcançado, apresentamos a utilidade do processo argumentativo e a necessidade da consideração da análise retórica como um dos instrumentos para a crítica das teorias pedagógicas.
Palavras-chave
Tarso Mazzotti; filosofia da educação; análise retórica; teorias pedagógicas; argumentação; pragmatismo; teoria do conhecimento.

Idendidade da profissão docentes

Há muito se debate a identidade da profissão docente. Deixarei de lado as referências, autorias e pesquisas, para centrar em um aspecto que me parece relevante: o que determina a identidade de alguma profissão?
A resposta usual é o reconhecimento das competências ou habilidades das pessoas que exercem a profissão. Tais habilidades são reconhecidas, de início, pelo profissionais, depois pelos usuários de seus serviços. Os profissionais reconhecem um conjunto da conhecimentos e proficiência na execução das tarefas; os usuários a efetividade (eficácia  efetividade) do fazer profissional. Por isso, a identidade de uma profissão depende tanto de seus profissionais quanto das demais pessoas, em particular dos que os contratam. O que implica a existência de algum modo de avaliação que pode ser menos ou mais subjetivo.

A avaliação do trabalho profissional contém, de maneira explícita ou não, as regras de conduta (ética profissional) estabelecidas pelo grupo de profissionais tendo em vista a sua respeitabilidade. Estas regras são as imediatamente verificadas pelos usuários (clientes), as que o grupo utiliza para censurar ou louvar os profissionais. Há regras determinam o modo correto de execução das tarefas, que os principiantes são menos hábeis, mas as normas éticas não distinguem os menos dos mais proficientes.

Qual a origem das normas do fazer? De uma tradição de trabalho, seja material ou imaterial. Elas estabelecem o ethos do grupo profissional, que sempre tem alguns considerados suas autoridades (líderes). Essas autoridades não apenas zelam pelo fazer bem feito, pois introduzem ou ratificam inovações.

Quando se trata da profissão docente tem-se afirmado que não há saberes próprios, uma tradição justificada ou justificável, sendo necessária uma Ciência da Educação.

No entanto, o requerido para uma profissão não passa necessariamente por alguma ciência, pois há as que se sustentam em conhecimentos tácitos de seus membros sem que se requeira alguma fundamentação científica. Um exemplo é a de maestro de orquestra, cuja competência não depende de alguma ciência, mas de suas habilidades pessoais reconhecidas pelos membros do grupo de maestros, músicos e amantes da música.

Se não é preciso uma ou mais ciência para sustentar conhecimentos relevantes para uma profissão, por que se requer isso para a profissão docente?
Eis uma questão a ser respondida...

Acepções de "epistemlogia"

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Traduzo a definição da palavra
epistemologia do Vocabulaire techinique et critique de la philosophie, dirigido por André Lalande, publicado em Paris pela Librairie Félix Alcan em 1932. Incluo o verbete principal e as notas de B. Russel, C. Ranzoli e A. Lalande.

Epistemologia (Épistemologie; Wissenschaftslehrer, em alemão; Epistemology, em inglês; Epistemologia, em italiano, português e espanhol).  Esta palavra designa a f
ilosofia das ciências, mas com um significado mais preciso. Não é propriamente o estudo dos métodos científicos, objeto da Metodologia que é parte da Lógica. Nem uma síntese ou antecipação conjectural de leis científicas (tal como no positivismo ou no evolucionismo). É essencialmente o estudo crítico dos princípios, das hipóteses e dos resultados de diversas ciências, para determinar suas origens lógicas (não psicológicas), seus valores e suas dimensões.
Deve-se distinguir a epistemologia da teoria do conhecimento, ainda que esta seja sua introdução e auxiliar indispensável, uma vez que estuda o conhecimento em detalhe e a posteriori, na diversidade das ciências e dos objeto mais do que na unidade do espírito.

Acerca da Epistemologia — Em inglês
Epistmology é sinônimo de “teoria do conhecimento” (B. Russell).

A distinção apresentada neste artigo entre epistemologia e teoria do conhecimento (gnoseologia) sem dúvida seria útil, mas não usual. Os filósofos ingleses, notadamente, tomam ambos os termos como sinônimos. Ver, por exemplo, FLINT,
Agnosticism (1903), p. 10, 13 — (C. Ranzoli)

Parece-me que ao distinguir
Epistemologia da Teoria do Conhecimento, seria melhor ampliar o significado do primeiro termo para nele incluir a psicologia da ciência, pois o estudo de seu desenvolvimento real não pode ser, sem prejuízo, separado de sua crítica lógica, sobretudo no que diz respeito às ciências que têm um conteúdo mais concreto; e, mesmo para as matemáticas, se é levado a considerar que são uma espécie de pura logística. — (André Lalande)

Contradição e incompatibilidade

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Ver também a comunicação "Dissociação de noções, o método do sistema hegeliano" em Comunicações.

Para Aristóteles não há contrariedade nas
relações, donde na relação senhor/escravo não pode ocorrer contradição, uma vez que são pólos da relação escravismo.

Nela os polos
senhor e escravo são postos na e pela relação, na qual nenhum dos dois é contrário, uma vez que cada um necessário e complementar ao outro. Assim sendo, não há dialética, uma vez que os relativos, ou as coisas relativas, encontram-se em uma dependência recíproca, não apresentam contrários, pois, para Aristóteles, todos “os relativos têm seus correlativos […]. Quando a relação é adequada a correlação é imediata” (Categorias, p. 69). O correlato de senhor, na relação escravista, é escravo. Mas, senhor em outra relação não pode ter por correlato escravo, uma vez que a definição, ou determinação, do correlato é dada pela relação exposta. Outro exemplo, na relação pedagógica aluno e professor são correlatos, não são contrários, donde não há dialética, mas correlação, relação conjunta. 

Para Aristóteles, a contrariedade só pode ser posta para a categoria
qualidade, a única que admite a contradição, o dizer contrário ou contrariedade. Donde, não se pode sustentar a ocorrência de dialética entre as categorias quantidade e qualidade, uma vez que a primeira é relativa, e a segunda não, ainda que esta admita intensidade, além de contrários. Para afirmar a existência de dialética entre quantidade e qualidade e vice-versa, é preciso que considerar a qualidade da quantidade, ou seja, o que é próprio da ‘quantidade’, como o faz Hegel em sua Ciência da Lógica. Ao considerar o quantum como qualidade, o que é próprio da quantidade, abre-se o caminho para examinar a contrariedade das qualidades da quantidade, logo a exposição dialética do quantitativo no campo da reflexão ontológica da quantidade. Fora desse espaço reflexivo não há porque considerar a quantidade em sua expressão qualitativa, uma vez que a qualidade de algo caracteriza-se por sua intensidade, e esta só pode ser quantificada depois de um esforço que demonstre os meios de sua mensuração. Daí Hegel assinalar que a unidade dialética entre a quantidade e a qualidade ser realizada na medida. A medida, em seu estatuto ôntico, expressa uma relação entre o que o sujeito-do-conhecimento (as ciências, os cientistas, o coletivo dos pensadores) vieram a determinar, ou definir, como meio para mensurar a intensidade de algo; ou seja: o meio para estabelecer os graus de intensidade de alguma qualidade. A qualidade e a quantidade per se são onticamente distintas, todavia podem ser reunidas na medida, se e quando o sujeito-do-conhecimento alcança definir claramente a unidade de medida da qualidade.

Esta maneira de ver, sustentada por Hegel, considera que o
ser em seu desdobramento conceitual é posto desde o início pelo que se afirma dele. Daí o ser é posto como ser sem outras determinações, salvo as suas qualidades inerentes, afirma ele é indeterminado, ilimitado, que é por si e em si(absoluto). O que se encontra é a qualidade do ser nele mesmo. A indeterminação, a limitação, o imediato do ser sem si e por si, requer o não-ser, uma vez que a sua definição já põe em presença a negatividade: in-determinação, i-limitação, i-mediatez. O ser determinado, o ser-aí (isto) apresenta-se à consciência reflexiva no momento mesmo em que afirma o ser em si e por si, pois, por esta forma, ele é nada, é não determinado. Sendo um movimento da qualidade do ser, uma ontologia —discurso acerca do ser—, trata-se de contrariedade, de dialética dos entes do pensamento, não de relações entre eles, uma vez que é um exame de suas mutações qualitativas na reflexão abstrata. Não se trata de um estudo de relações, de investigações estruturais, mas de uma exposição ontológica e, como tal, uma metafísica, uma filosofia do pensar para além das determinações experenciadas, empíricas, um pensar o próprio pensamento em seu movimento ao tomar o caminho da definição das qualidades nelas mesmas, no qual o ser em si e por si é o ponto de partida. Tal ponto de partida, para não ser arbitrário, deve ter início na exposição do essencial do movimento do pensamento reflexivo, ou filosófico, partindo de Parmenides —para quem o ser é—  e da oposição a este pensamento apresentado por Górgias, que negava a pertinência do ser em si e por si

No entanto, Hegel, na
Fenomenologia do Espírito fala em dialética do senhor-escravo, o que invalida toda exposição anterior. De fato, a dialética senhor/escravo, aquela que interessa a Hegel, é a que expressa a qualidade senhor e a qualidade escravo, o ser-senhor e o ser-escravo, não alguma relação escravista existente. Na qualidade senhor e na qualidade escravo há contrariedade: o senhor quer ser reconhecido como tal pelo escravo e, neste movimento do querer ser reconhecido por sua qualidade de senhor, ele mesmo deve reconhecer no escravo um ser humano, aquele que pode reconhecer um outro (ou, pela negativa, aquele pode não querer reconhecer o outro como senhor). Logo, o escravo é subjetivamente livre, pois tem uma vontade —pode ou não reconhecer o outro como senhor. Essa qualidade humana, ou seja, a de decidir se reconhece ou não o outro, expõe —põe para fora— a propriedade ou o atributo ser livre, aquele que pode negar-se a cumprir uma ordem, uma instrução, um mandato. O escravo é livre, ainda que apenas subjetivamente, uma vez que não pode efetivar, tornar real, sua decisão final, pois corre o risco de morrer. Note-se que se trata da qualidade senhor e da qualidade escravo, que ultrapassam qualquer situação vivencial. É a expressão de uma qualidade que pode ser posta tanto na relação social escravista, que é a exemplar, quanto na que se refere aos fiéis e os sacerdotes, como entre os crentes e Deus, horizonte sempre presente no pensamento hegeliano.

A determinação da qualidade, por sua vez, é compreendida, na tradição Ocidental, como um problema característico da predicação, uma vez que o sujeito a ser predicado deve ser em si e por si mesmo, senão ficará impedido de receber os contrários, como já anotara Aristóteles. O desenvolvimento hegeliano da predicação parte da completa abstração do sujeito da frase, aquele que recebe os predicados, apresentando-se na forma de uma metafísica generalizada. 

Da predicação
O problema da predicação, o que tem por objeto as condições necessárias e suficientes para reconhecer as qualidades de algo enquanto tal põe em cena o problema da percepção do objeto. 

As teorias que procuram solucionar tal problema podem ser categorizadas em três grupos: subjetivas, objetivas e construtivas. Não pretendo desenvolver esta categorização, quero apenas dizer que as teorias
subjetivas da percepção consideram que o percebido é pura atribuição de qualidades que o sujeito considera pertinentes àquele; as objetivas julgam que o sujeito recebe as qualidades do percebido, tal e qual elas são; e as construtivas consideram que há uma relação de constituição entre o sujeito do conhecimento e o percebido, este tomado por objeto —objectum, obstáculo— de apreensão pelo sujeito do conhecimento. 

Em qualquer dos casos, o problema da percepção é o das qualidades, atributos, predicados, ou categorias nas quais o percebido o é para o sujeito-do-conhecimento, este compreendido como um coletivo dos percebedores qualificados. Estes percebedores qualificados são ou o auditório universal ou o auditório particular, conforme a teoria da argumentação, ou nova retórica (Perelman e Olbrechts-Tyteca, 1996). Assim, o percebido é, desde o início, inter-subjetivo, coletivo, social, pois a pura percepção individual é solipsista, mesmo para os que sustentam uma teoria subjetiva da percepção, uma vez que o problema do percebido é posto se e quando se pretende constituir as bases, ou fundamentos de qualquer conhecimento confiável. Isso porque o percebido só requer uma teoria da percepção se e quando há alguma exigência para estabelecer o que é tomado por objeto em comum (público). No caso, por exemplo, da argumentação forense, a determinação do crime e do criminoso requer o máximo de objetividade possível, do contrário corre-se o risco de uma condenação injusta. Isso significa que o crime e o criminoso não são categorizáveis pelos estados subjetivos dos advogados, do provável criminoso, do juiz e nem do júri, uma vez que a imputação deve ser estabelecida para além dos juízos individuais, ou seja, deve ser coletivo, mesmo que haja engano de julgamento. A possibilidade do erro de julgamento inscreve-se no processo jurídico, no qual sempre se permite o recurso e a reabertura do processo em outras instâncias e com outros juízes. 

O exemplo põe, imediatamente, um dos problemas da determinação das qualidades de algo, o da
falácia petição de princípio, ou seja a que postula o que se deseja provar. No exemplo acima, ou a inocência ou a culpabilidade. A petição de princípio não diz respeito à lógica, mas à argumentação, como sustenta Perelman e Olbrecht-Tyteca (1996, p. 127): “…a petição de princípio, que não diz respeito à verdade, mas à adesão dos interlocutores às premissas que se pressupõem, não é um erro de lógica, mas de retórica; é compreendida, não no interior de uma teoria da demonstração, mas relativamente à técnica argumentativa”. 

No caso da argumentação que procura a verdade, ou seja, a da lógica, a acusação de petição de princípio para invalidar um raciocínio conduz à negação das técnicas dedutivas, uma vez que os axiomas são constituídos a partir de uma estipulação como, por exemplo, o chamado
princípio da identidade ao afirmar que todo enunciado implica ele mesmo. A argumentação que busca a verdade entre enunciados, própria da lógica, é formal, independente do significado dos enunciados, por considerar a verdade da forma em que se põe a cadeia de proposições. O significado das proposições é extra-lógico, depende da adesão do auditório e, por isso, estabelecido por meio de técnicas retóricas. 
Assim considerando, o estabelecimento dos significados se faz por meio de argumentações com base em premissas aceitáveis pelos atores sociais envolvidos no diálogo: oradores e auditórios, interlocutores que se encontram ora numa ora em outra posição. Estes compartilham significados, requerendo o conhecimento de suas fontes, as quais, no geral, são consideradas um capítulo da psicologia. O problema posto é o da determinação dos mecanismos que permitem o compartilhar significados em certo grupo social. 

É neste contexto que emergem as explicações que sustentam que a intuição, os pré-juízos, as ideias recebidas caracterizam o chamado
senso comum, o qual, por sua vez, pode ser apresentado como um obstáculo mais ou menos intransponível ao conhecimento científico. Francis Bacon, por exemplo, considerava que os ídolos (idola) devem ser afastados de nossas consciências de maneira a permitir uma correta leitura do livro da natureza. Para ele, todas as ideias recebidas e desenvolvidas nas situações usuais fornecem uma grade de leitura que impede a apreensão correta do mundo. Dessa maneira, seria necessário alterar essa grade de leitura por meio de um paciente trabalho de reflexão crítica que resultaria em uma maneira adequada de verificar os enunciados sobre o mundo. Tal processo de clarificação das ideias prévias originadas das mais diversas fontes é condição necessária, ainda que não suficiente, ao estabelecimento da ciência ou dos conhecimentos confiáveis, compartilhados pelo auditório qualificado de cientistas e demais pessoas que tenham se afastado de qualquer dogmatismo. 

No entanto, em Bacon, os
ídolos, ainda que tenham origem imediata nas relações sociais e do indivíduo consigo mesmo, não expõem as condições em que são engendrados. Além disso, os mecanismos pelos quais os ídolos podem ser afastados são precários, uma vez que dependem da vontade, do desejo de cada um, sem explicar as razões pelas quais essa vontade, ou desejo, apresenta-se. Não é o caso, evidentemente, de solicitar de Francis Bacon, algo que ele não apresentou para si mesmo, uma vez que ele considerava ser uma necessidade social e histórica de seu tempo a superação dos dogmatismos como condição para uma vida melhor na terra. O relevante é que o problema da determinação de algo, da explicitação do que é esse algo, é dependente da rede de significações — ídolos— que o sujeito do conhecimento apresenta. Aqui, como em todas as teorias sobre as condições para o conhecimento confiável, a interpretação, o processo de apreender o mundo, tomando-o por objeto, é fundamental. De fato, no longo diálogo da filosofia este é o problema da predicação, seja esta originária ou de uma revelação ou da percepção imediata, o predicado sempre se apresenta como um conjunto de qualidades ou atributos nos quais o objeto deve ser definido: especificação de seus limites no espaço e no tempo, por um término, finitizar. 

O problema é, dessa maneira, o do estabelecimento das categorias em seu significado clássico e não matemático contemporâneo— necessárias e suficientes à apreensão dos seres do mundo e dos atores no mundo. 

Hegel crítico da tópica categorial
Hegel, ao criticar a listagem de categorias aristotélicas e, mais ainda, as apresentadas por Kant, procurou desenvolver uma ciência, ou conhecimento, da lógica na qual as categorias aparecem para o pensamento em suas determinações recíprocas. Para isso, desde o início da Ciência da Lógica, ele procura expor o ser (Sein) por meio de suas qualidades, as quais são, desde o início, os atributos ainda indeterminados, absolutos, simples do ser.

A primeira qualidade manifesta do ser nele mesmo, no ser absoluto, sem determinações, é que ele é não-determinado, não apresenta limites espaciais (borda) e temporais, é infinito no espaço e no tempo. Dessa maneira, o ser nele mesmo, o ser absoluto, é
nada, por não ter limites, ele tem por limite o nada, o não-ser, o que impõe, para o pensamento, sua determinação, o estabelecimento dessa qualidade infinita no tempo e no espaço, logo estabelece uma contradição entre as qualidades de ser e não-ser, a qual só alcança sua sublimação no ser-determinado  (Dasein), ou ser determinado pelas qualidades contrárias. Por serem qualidades contrárias, sublimadas no ser-determinado, o pensamento pode continuar seu movimento de definição (de finire, pôr limites) do ser imediato ao reconhecer que está examinando a qualidade nela mesma. Pois, “A determinação, isolada por si desta maneira, como de terminação existente, é a qualidade, algo totalmente simples, imediato. A determinação, em geral é o mais universal, que pode ainda ser tanto o qualitativo como um determinado posteriormente. Por causa desta simplicidade não há nada mais a dizer sobre a qualidade enquanto tal” (Hegel, 1968, p. 101).

Isso porque a negação é a “
pura falta”, mas é, ao mesmo tempo, uma qualidade determinada pelo não-ser (cf. ibidem, p. 101). O ser determinado apresenta a qualidade de existente e nele se encontram as diferenças entre o existente e a negação, que são nulas, pois a existência é a negação do ser indeterminado, abstrato, uma vez que é existente. Daí porque a qualidade em geral, a qualidade nela mesma, não pode ser separada da existência, a qual é “apenas um ser determinado e qualitativo” (ibidem, p. 104). É a ação do pensamento que põe, por essa via, o algo, ou a representação de “um real” (ibidem, p. 104), que é uma determinação muito superficial, abstrata, uma vez que é simplesmente a negação da negação, que se estabelece pela reflexão consigo mesma, ou que tem a ela mesma por mediação. Essa ação de determinar a qualidade de algo consigo, a mediação de si para consigo, é ainda abstrata, indeterminada, vazia, só começa ganhar contornos se e quando o algo se põe frente a outro, inicialmente de maneira indiferente, cada um em suas próprias qualidades inerentes, com suas negações externas, cada qual é em si e por si, sem qualquer outra determinação. Põe-se como interioridade e exterioridade formais, em si mesmas, as quais aparecem em expressões destituídas de valor como “não há nada nele, ou ainda: há algo nele, contêm, se bem que de uma maneira algo obscura [o conceito de] que o que está no também pertence ao seu ser-em-si, ao seu interior e verdadeiro valor” (ibidem, p. 108). O ato de definir, de determinar, é o de predicar o sujeito, o tema, o objeto, o algo posto no discurso, na argumentação. Tem-se, aqui, um movimento do pensar desprovido de concretude, uma vez que abstrato, simples, no sentido hegeliano, que considera estar dizendo muito, quando pouco diz. Pois, como sustenta Hegel, a coisa-em-si é uma abstração muito simples, ainda que considerada como muito importante, na qual se afirma que nada sabemos caso não saibamos “o que são as coisas em si” (cf., ibidem, p. 109). 

Não é o caso de expor a
Ciência da Lógica tomada aqui para apresentar o problema da predicação. O valioso é considerar que o ato de predicar, ou determinar, requer o estabelecimento das qualidades postas em relação entre o ser-em-si e o ser-outro, o qual, por sua vez, é um ser-em-si. Uma primeira qualidade que aparece, nessa relação qualitativa, é que cada um apresenta uma interioridade e uma exterioridade, a isto retornaremos logo a seguir.

Por esta exposição sumaríssima de alguns momentos da ontologia hegeliana já se pode perceber que há um encadeamento entre os instantes da reflexão qualitativa, aquela que Hegel denominou
lógica objetiva

A divisão da lógica é justificada por Hegel ao dizer, no Prefácio da Segunda Edição da
Ciência da Lógica, que a lógica objetiva expõe a “doutrina do conceito”, porque, “ainda que a essência já se encontre representada no interior, o caráter de sujeito [Subjekt, assunto, tema] deve expressamente ficar reservado ao conceito” (Hegel, 1968, p. 56). Ainda segundo Hegel, a lógica objetiva corresponde, em parte, à lógica transcendental proposta por Kant. No entanto, diferentemente desta, aquela substitui a ontologia da metafísica anterior, além disso, é uma nova metafísica ao procurar compreender “junto com as formas puras do pensamento, os substratos particulares, tomados, no começo, da representação; quer dizer, a alma, o universo, Deus; e as determinações do pensamento constituem o essencial do modo de considerar as coisas. Porém a lógica considera estas formas livres daqueles substratos, quer dizer dos sujeitos [Subjekts] da representação, e considera sua natureza e seu valor em si e por si mesmos”. (Hegel, 1968, p. 58.) 

Aqui se pode deixar de lado o movimento hegeliano, pois interessa apresentar um significativo passo em direção à determinação das noções primitivas de
interior e exterior, bem como de outras que estabelecem qualidades, que apresentam contrários, logo permitem o desenrolar dialético.

Interior e exterior
As noções interior e exterior são qualidades e contrárias, como sabemos. Ambas têm por base, ou fundamento, o corpo, as nossas percepções corporais. Afirmação que pode parecer esdrúxula, mas se sustenta na argumentação de Lakoff e Johnson (1980) acerca das metáforas conceituais, ou conceitos metafóricos. Para Lakoff e Johnson os conceitos metafóricos são utilizados pelos falantes para sistematizar suas experiências de vida. 

Entre eles encontra-se o conceito metafórico CONTAINER (continente) que institui os significados de interior e exterior, uma vez que somos seres físicos separados do resto por nossa superfície, por nossa pele, experimentando o restante do mundo como externos a nós. “Each of us is a container, with a bounding surface and an in-out orientation” (Lakoff e Johnson, 1980, p. 29). Nossos sentidos proprioceptivos estabelecem o esquema de interno e externo, o qual, para Lakoff e Johnson, encontra-se em inúmeros conceitos sobre nós mesmos, os seres vivos e inanimados, bem como entes abstratos como, por exemplo, um território géo-político. 

As qualidades
interno e externo determinadas pelo esquema corporal que institui o conceito metafórico CONTINENTE, que se estende por todos os lados —por certo uma metáfora de tipo ‘continente’— constituindo-se as premissas argumentativas. Tais premissas argumentativas encontram-se nos discursos a respeito do mundo e são partilhadas pelos auditores. Estabelecer a verossimilhança dessas premissas é trabalho do orador perante seu auditório, mas sempre se apoiando no sentido básico compartilhado do conceito metafórico CONTINENTE. 

O procedimento para institui significados compartilhados de premissas verossímeis, próprio da atividade argumentativa, requer que se faça a negação dos contrários, uma vez que se trata do estabelecimento de qualidades que seriam pertinentes (novamente o conceito metafórico CONTINENTE) ao que se pretende definir. É aqui que não se pode cair na falácia da petição de princípio, como demonstraram Perelman e Olbrecht-Tyteca, pois a definição requer que as qualidades sejam expostas de maneira a convencer os auditores por meio do mostrar, da exposição das condições que permitem a conclusão. Não é, de fato, uma demonstração, mas um mostrar as qualidades que próprias de algo, separando-as das que não o são, bem como da exposição da contradição, ou a apresentação dos contrários, que impedem que o algo seja outro a não ser ele mesmo. Em um mesmo algo não podem estar qualidades contrárias às que lhes são próprias, já advertira Aristóteles. 
Parece-me que Lukasiewicz tem razão ao criticar Aristóteles quando este considera que aquela restrição argumentativa é um princípio lógico sem o qual não é possível qualquer processo dedutivo. Lukasiewicz demonstrou que o princípio da (não) contradição não é necessário para a lógica, ainda que necessário aos juízos éticos, uma vez que sem o contraditório não há como estabelecer a culpabilidade de alguém frente a um crime, por exemplo. Não apenas para os juízos éticos são necessárias as determinações das contradições, uma vez que em todo raciocínio não puramente formal é preciso estabelecer o que algo é e cuidar para que a falta retórica de petição de princípio seja ou superada ou eliminada. 

Para o que estamos envolvidos neste momento é relevante assinalar que a contrariedade é condição posta pelas qualidades, não pelas relações, pois qualidades contrárias excluem-se e, no ato de predicar, pode ser estabelecida uma aporia quando ocorrem ao mesmo tempo e na mesma situação (contradição), a qual pode dar lugar a uma sublimação que restabeleça o significado das qualidades próprias de algo, quando se toma a perspectiva hegeliana. Nesse caso, as qualidades contrárias são as que se põem para o pensamento em seu ato de predicar abstrato, sem outras determinações, a não ser o pensar acrca do pensar. Uma vez ultrapassados os problemas próprios do predicar em si mesmo, o pensar absoluto, tem-se um sistema classificatório, em que cada ente encontra seu lugar, até que se reinicie o problema das qualidades próprias de cada classe. Por exemplo, em qual classe dos animais pode ser posto o ornitorrinco? Examinemos o procedimento de categorização e de classificação.

Classes (sociais)
As classes em que são postos os seres dependem de uma exposição das qualidades dos seres, sempre envolve uma ontologia. Esta é uma exposição que procura justificar escolhas qualitativas e, pelo movimento mesmo da definição das qualidades, põe em presença a intensidade das qualidades que permitem estabelecer as classes. A intensidade expressa a qualidade como quantidade, ou melhor, quantum, que é a qualidade do quantitativo. Tal determinação abstrata, no dizer de Hegel, faz-se pela exterioridade da qualidade e da quantidade que encontram sua unidade na medida, que é a expressão quantitativa da qualidade determinada pelo quantum, por sua intensidade. Dessa maneira, no movimento determinação das classes nas quais se incluem os seres a medida expressa a qualidade determinada e, por essa via, o momento em que algo que deve ficar fora da classe em questão. 

Esta condição aparece de maneira clara quando se examina as dificuldades que se tem quando, a partir do exame qualitativo, pretende-se estabelecer um sistema de classes que contenha os existentes, o seres empíricos. Por exemplo, a definição de
classe social em Marx apoia-se em uma qualidade: ser proprietário dos meios de produção. Os diversos tipos de propriedades de meios de produção estabelecem classes sociais distintas, assim o proprietário da força de trabalho, o proletariado moderno, é uma classe distinta da dos que detêm a terra, os instrumentos de trabalho etc. Essas formas de propriedade dos meios de produção determinam as rendas obtidas por seus proprietários: o salário, no caso dos proletários; as rendas fundiárias, no caso dos proprietários dos solos; a mais-valia, no caso dos capitalistas industriais e das finanças.

No entanto, tanto a renda fundiária, como a renda na forma de mais-valia e juros, são consideradas formas equivalentes de mais-valia, que é retirada do trabalho não-pago realizado pelo proletariado e pela produtividade natural do solo, entendido em seu significado extenso, o qual contém todas as forças produtivas naturais. Daí a dificuldade de se estabelecer quais são as classes sociais, uma vez que setores inteiros da sociedade podem receber rendas na forma de salário e não estarem produzindo mais-valia, como é o caso dos militares, sacerdotes, aposentados. Por outro lado, uma pessoa pode encontrar-se em uma situação em que é proprietária de terras, de capital industrial e financeiro, participando de diversas classes sociais, quando se considera a origem de suas rendas.

Finalmente, ao considerar que uma classe social define-se por suas
qualidades políticas, ou seja, por seus interesses de classe, como faz Marx em inúmera passagens, tem-se outra determinação qualitativa: a dos interesses próprios de uma classe e os que lhes são antagônicos. Nesse caso, não se trata mais de relações sociais determinadas pela forma de propriedade, mas de valores aceitos pelos membros de um grupo social que se definem a si mesmos por aqueles valores, ou seja, veem a si mesmo pela qualidade que julgam ser próprias dos membros de seus grupos social. Aqui pode haver, de fato, contradição, uma vez que são qualidades diversas mas, no primeiro caso, o da determinação das relações sociais, tem-se correlações, não contradições.

São correlações porque a realização da produção é organizada de maneira a alcançar o máximo de mercadorias com um mínimo de dispêndio de força de trabalho humano, requerendo o trabalho cooperativo que envolve a todos, capital e trabalho, sem qualquer antagonismo, a não ser contra a improdutividade, a qualidade requerida por aquela relação de produção. Isso porque as relações são, nitidamente, correlativas, envolvem uma coordenação para a efetividade do desejado, logo não podem ser consideradas expressão de contradições.

No entanto, quando se altera a análise pondo em cena os interesses das classes sociais, ou seja, as referentes a qualidade de vida que cada uma requer para si, então o antagonismo das qualidades aparecem. O proletariado deseja a redução do tempo de trabalho socialmente necessário para produzir a mercadorias, sem perdas salariais; e, o capitalista deseja a maior produtividade possível, com redução dos salários tanto na forma absoluta quanto na relativa. Na forma relativa, conserva os valores dos salários intensificando a produção, ou aumentando a produtividade, sem que os ganhos sejam compartilhados pelos trabalhadores diretos. Por isso se pode falar em contradição entre as classes sociais, pois está em jogo a qualidade de vida requerida pelas classes em presença.

Mas, não se pode falar em contradição nas relações de produção, uma vez que nelas há uma coordenação das atividades para se alcançar uma determinada qualidade: a da produção de mercadorias. Talvez por isso Marx não tenha completado seu capítulo sobre as classes sociais, pois a exposição centrada nas relações sociais de produção apresenta uma análise das correlações entre os envolvidos, em que os contrários são a expressão da não efetividade da produtividade. Ou seja, na produção a cooperação requer que se elimine a qualidade que impede o processo produtivo, não apresentando a contradição entre interesses das classes. Os interesses das classes ficam subsumidos pela necessidade da cooperação produtiva. A necessidade, quando compreendida pelo capital, estabelece um mecanismo de participação que encontramos nas fábricas contemporâneas, em que os trabalhadores são considerados parceiros da produção. 

O quê foi dito implica considerar que o estabelecimento das
classes e das categorias em qualquer ciência é um processo permanente de argumentação que requer a clarificação dos critérios pelos quais são estabelecidas. Assim, no caso das classes sociais no sentido marxiano, dois critérios são utilizados simultaneamente impedindo a determinação das classes sociais existentes. Caso se considere que uma classe social define-se pelo lugar no processo produtivo, tem-se que a descrição das relações conduz ao exame das que são pertinentes e as não pertinentes ao processo, tendo por horizonte a qualidade a ser realizada, no caso, a produção de mercadorias. Se o investigador centra sua atenção em outras condições, nos interesses por exemplo, sua análise toma as qualidades de vida desejadas pela classes e, neste caso, exporá antagonismos, desde que os interesses sejam efetivamente contrários. Neste segundo caso se tem a dialética dos interesses; e no primeiro, uma descrição das relações internas do processo de produção, de suas correlações.

Observe-se que as relações internas aparecem sempre nas formas clássicas de correlação, que se mostram como ou esquemas ou estruturas de relações: dado um operador sobre um conjunto de elementos, tem-se que as  formas da operação podem ser descritas por um número finito de propriedades daquela operação sobre conjunto. Um exemplo imediato e formal é o da operação de adição sobre o conjunto dos números racionais que apresenta quatro e apenas quatro propriedades: associativa, comutativa, elemento neutro e elemento inverso (grupo comutativo).

Dissociação de noções, não dialética
Vimos que em Hegel a relação de determinação do ser, requer o outro, que é imediatamente o não-ser. Que ambos são correlativamente internos e externos. Diz-se que se trata de uma “relação dialética”, mas também sabemos que não há dialética na relação, pois seus contrários são correlativos, uma vez que só há dialética se e quando há qualidades contrárias atribuídas a um sujeito (assunto, tema, objeto de definição) que sobre ele agiriam simultaneamente. O exemplo da imputação de um crime a uma pessoa é bem claro: uma pessoa não pode ser qualificada como criminosa e não criminosa na mesma situação. O debate hostil/amistoso a respeito da qualidade “criminoso” parte do problema ou pergunta: Fulano é ou não é criminoso?

Como, então, considerar que Hegel erigiu sua
Ciência da Lógica sobre a dialética? Parece-me que a sustentação dos argumentos hegelianos não está na dialética, mas na dissociação de noções. Esta técnica argumentativa foi sistematizada por Perelman e Olbrechts-Tyteca (1996). A dissociação de noções opera da seguinte maneira: um noção ou conceito usualmente apresentado como unitário é divido em dois termos, em que o segundo apresenta as qualidades consideradas plenas, superiores, melhores, as que faltam no primeiro. Assim o termo I caracteriza-se pelo que falta para ser o termo II, ou a negação é a “pura falta”, mas é, ao mesmo tempo, uma qualidade determinada pelo não-ser (cf. ibidem, p. 101).

Apenas quando se considera que o esquema argumentativo de Hegel sustenta-se na dissociação de noções, pode-se sustentar que há uma transição entre a pura falta ao pleno, a efetivação das qualidades que se encontram postas no termo II. Isso porque, em dialética, decide-se que o sujeito é ou não, bem como se há como responder esta questão, caso não se possa responder, então se está em um beco sem saída (aporia). Mas na dissociação de noções o orador postula tanto a falta quanto o processo de passagem, de trânsito, de um polo ao outro.

Epistemologia na clave musical


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Steven B. Katz desenvolve um tese extremamente relevante: a teoria do conhecimento confiável (filosofia da ciência ou epistemologia, teoria do conhecimento científico) usual sustenta-se em metáfora visuais, mas estas são impróprias para o que sabemos a partir da Nova Física. A Nova Física, inaugurada no início do século XX, sustenta no que foi denominado “princípio da incerteza”, bem como na teoria da relatividade, esta se referindo ao espaço de parâmetros em que se encontra o observador.
Katz, então, propõe recuperar a filosofia dos sofistas, ou as teorias retóricas anteriores a Cícero, que se sustentavam na oralidade. A oralidade obedece o ritmo e  harmonia para instituir significados, o que se procura reproduzir na escrita tanto de poemas quanto em prosas.
Ainda estou estudando a obra de Katz. Dentre os aspectos mais salientes estão a consideração das metáforas espaciais, nas quais sustentamos a epistmeologia corrente; a musicalidade da fala, que permite mobilizar os afetos; a recuperação sistematizada dos sofistas e retores antigos, em particular Cícero.

Droga é cultura?


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Não falarei do filme, não assisti. O assunto é a nota publicada no jornal O Globo de hoje (6 de Junho de 2011, Segundo Caderno, p. 5, na coluna da direita) cuja imagem está ao lado: Droga e cultura.
Por quê? Por ser um exemplar de representação social de um grupo, provavelmente de usuários da maconha. A imagem do cartaz, o jornalista preferiu usar “pôster”, apresenta um bagulho atado a uma bala de fuzil, representando a ligação entre as drogas ilícitas e a guerra os narcotraficantes. A imagem do cartaz expressa o que se diz no filme: desatar o laço.
A nota afirma que a
bala de fuzil é uma caneta! Distorce os significados instituído no cartaz; desfalca a imagem de seu conteúdo imediato, os laços entre a droga e a guerra contra os narcotraficantes; acrescentando o que o jornalista considera desejável (seus valores), o laço da maconha com a cultura letrada (a caneta). Por isso disse ser exemplar de uma representação social de um grupo, provavelmente de usuários da marijuana. Afinal, apenas os usuários enxergariam na imagem do cartaz uma ligação desejável entre o papelote e a cultura. Para eles é uma relação dada, não a que o filme apresenta.
Como sempre, o objeto só o é para quem o reconhece, não há “objeto puro”, sem o concurso de alguma teoria, seja esta científica ou do senso comum de algum grupo, como é o caso das representações sociais.