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Metodologia qualitativa versus quantitativa

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— Qual a diferença entre metodologia quantitativas e qualitativas?
— A diferença fundamental está na validação da inferência. Na quantitativa, a inferência válida atende os critérios de probabilidade estatística; na qualitativa, a validade decorre da plausabilidade: é provável que ocorra tal como descrito.
— Fiquei na mesma...
— A inferência é o procedimento que permite afirmar alguma coisa a respeito de eventos ou fenômenos. A forma geral mais divulgada é
O homem é mortal
Fulano é homwm
Logo, Fulano é mortal
— Mas isso é um silogismo!
— O silogismo é o nome grego para inferência. Como sei que “homem é mortal”?
— Por que todos morrem...
— Certo. Mas não conhecemos todos os homens que existiram e existirão, então seria melhor dizer que os que conhecemos até agora morreram ou morrerão. Seja como for, a premissa maior “homem é mortal” é uma afirmação, ou proposição, em que o sujeito é “homem” e o predicado nominal “é mortal”. Essa inferência sustenta-se na qualidade “mortal”, que julgamos ser uma propriedade do sujeito (homem). Não parece ser preciso quantificar ou verificar quantos são os casos de “mortal” para estabelecer aquela inferência plausível. Sabemos que somos mortais. Como sabemos? Está em nossa experiência coletiva. Nesse tipo de inferência não recorremos à contagem, nem aos cálculos de probabilidade para verificar se podemos generalizar o verificado para a população humana.
— Isso eu entendi; mas quando é preciso usar a contagem ou a estatística?
— Quanto uma
qualidade, medida de alguma maneira, não expressa imediatamente uma propriedade do sujeito (da frase, da premissa maior) ou quando for variável, quando pode ou não ocorrer.
— Um momento, quer dizer que se mede qualidade?
— Mede-se. Se a medida é adequada ou não é um tema importante para as pesquisas científicas.
Qualquer qualidade pode ser medida de alguma maneira. Por exemplo, quando dizemos Fulana é mais bonita do que Sicrana, usamos uma medida. Esta medida, por não ser análoga à uma escala de razão, é dita categorial, baseada em categorias, palavra de origem grega que tem o mesmo significado da latina predicado.
— Explique isso.
— Uma escala de razão ou proporção tem por base uma escala em que cada unidade é estável; cada número é perfeitamente proporcional a outro; parte de um zero definido como absoluto. É a que usamos no sistema métrico decimal, por exemplo. A medida categorial não tem essas propriedades, apenas diz que há tais e quais categorias, como “belo”, “menos belo” e “feio”, por exemplo.
— Tendo uma medida, pode-se fazer estatística...
— A medida determina qual estatística pode ser usada. Se for métrica, ou análoga à métrica, então podemos usar as estatísticas paramétricas; caso contrário, apenas as não-paramétricas. Por exemplo, os sistema de notas dos alunos ainda que utilize numerais não é paramétrico, é, quando muito, intervalar, ou seja tem intervalos iguais. Sendo assim, não se pode, rigorosamente, calcular a média das notas de um aluno ou do conjunto dos alunos, pois não é paramétrico. Pode-se contar quantos alunos obtiveram a notação 5, correspondente ao número que questões que acertou, para organizar uma escala de postos.
— Então a diferença não está na inferência, mas na medida?
— Está na inferência. A medida é a intensidade de uma qualidade que pode permitir ou não algum tipo de inferência estatística. Nas pesquisas ditas qualitativas infere-se sem recorrer aos procedimentos estatísticos, mesmo assim utilizam algum tipo de medida.
— Como assim?
— A medida, nas pesquisas ditas qualitativas, referem-se a certos aspectos da realidade, que são as qualidades que variam. Essa variação, no geral categorial, é investigada para se saber se ela é ou não relevante. Por exemplo, seria relevante o sexo do aluno quanto ao seu sucesso escolar? O sexo do aluno é algo dado, mas, em nossas sociedades, há normas de comportamento consideradas próprias dos homens e das mulheres. Então a questão é outra: o gênero dos alunos determina seu sucesso escolar? O que se está supondo? Que o gênero, ou os comportamentos consideradas corretos segundo o sexo em cada cultura, tem algum papel no fracasso dos alunos, por exemplo. A inferência é: uma vez que gênero define o lugar social, então o gênero do aluno deve determinar seu lugar na escola (sucesso ou fracasso). Nesse nível de análise não temos como saber se é assim ou não, sendo preciso realizar investigações que mostrem se aquela inferência mantém-se. A qualidade “gênero” varia segundo as diversas culturas, ela variaria nas escolas? Como saber? Por meio de pesquisas com as pessoas que trabalham e estudam nas escolas. Elas dirão se o gênero determina o fracasso ou o sucesso.
— Mas as pessoas dizem o que querem...
— É verdade. Por isso é preciso planejar uma pesquisa que permita verificar o que dizem ser o caso. Esse planejamento é o de uma pesquisa qualitativa, pois visa estabelecer se uma certa qualidade apresenta-se como algo perfeitamente definido, se é ambígua, se é dispersiva ou o que for. A pesquisa qualitativa tem por objetivo estabelecer qual a qualidade relevante em certos contextos. Uma vez estabelecida a qualidade e suas variações pode-se obter uma medida. Essa medida, se for uma escala de razão, o que é raríssimo em todas a ciências, então uma pesquisa estatística paramétrica poderá ser conduzida. Se não for uma escala de razão, pode-se utilizar as estatísticas não-paramétricas.
— Então não há uma diferença completa entre essas metodologias, pois na qualitativa busca-se determinar as qualidades que depois podem ser pesquisadas usando as metodologias quantitativas...
— Exatamente. Se o silogismo ou inferência for composto por enunciados que apresentam qualidades duvidosas, então é preciso verificar o caráter dessas qualidades, se elas são efetivamente diferentes, se não são uma variação de uma qualidade mais ampla, bem como se as variações são categoriais, ordinais, escalar ou se podem ser postas em uma escala de razão. Realizada essa tarefa, é factível uma pesquisa organizada em torno de modelos probabilísticos, como as estatísticas