Silogismo sujo
16/07/11 15:13 Filed in: Filosofia
Luiz Fernando Veríssimo publicou em O Globo de hoje sua opinião que tem por título “silogismo sujo”. Transcrevo-o abaixo, com algumas observações de minha autoria. O texto de Veríssimo é cômico, as observações não são.
Silogismos, nos diz o dicionário, é uma dedução pela qual duas premissas levam a uma terceira, ou a uma conclusão lógica. Por exemplo: todo homem é mortal, eu sou homem, logo tchau. O dicionário enumera vários tipos de silogismos, mas não inclui o que pode chamar de silogismo sujo —ou a dedução lógica a que leva a uma conclusão imoral, ou pervertida. Exemplo: se não fosse a influência da cultural negra a civilização ocidental seria muito mais sem graça —para não falar em sem ritmo e sem colorido— do que é, logo foi bom existirem a escravatura e a diáspora forçada de negros da África. Outro exemplo, ainda pior: é inimaginável a cultura americana se a contribuição de intelectuais e artistas judeus expulsos da Europa pelo fascismo, foram os nazistas que os expulsaram, logo o fascismo não foi tão ruim assim. (Ninguém faz esse tipo de dedução a sério, mas há algo de silogismo sujo na defesa que se ouve de governos fortes, ou da ordem como a principal virtude de uma sociedade, mesmo com o sacrifício de direitos e liberdades. Há um silogismo sujo à espreita sempre que se procura justificar os excessos de um regime repressivo com supostas realizações do regime, em repetidas tentativas de rescrever ou absolver o passado. Como no Brasil.)
A diáspora africana nos deu o samba, o jazz e todos os ritmos caribenhos, certo. O fascismo, o comunismo e outros ismos persecutórios mandaram grandes cabeças e talentos para as Américas. Basta lembrar o caso dos Estados Unidos, onde gente como Saul Steinberg, Billy Wilder e Vladimir Nobokov, para citar poucos, não teria tido a experiência do exílio e da realização artística do desterro se não tivesse que fugir de Hitler, de Mussolini e dos bolcheviques. Mas, em vez da racionalização amora de um silogismo sujo para conter esse paradoxo, deve-se pensar nele como o efeito colateral da grande desarrumação da História. A História é explosiva, as explosões acabam com qualquer ideia de lógica ou simetria, logo vá entender.
Observações
Silogismos, nos diz o dicionário, é uma dedução pela qual duas premissas levam a uma terceira, ou a uma conclusão lógica. Por exemplo: todo homem é mortal, eu sou homem, logo tchau. O dicionário enumera vários tipos de silogismos, mas não inclui o que pode chamar de silogismo sujo —ou a dedução lógica a que leva a uma conclusão imoral, ou pervertida. Exemplo: se não fosse a influência da cultural negra a civilização ocidental seria muito mais sem graça —para não falar em sem ritmo e sem colorido— do que é, logo foi bom existirem a escravatura e a diáspora forçada de negros da África. Outro exemplo, ainda pior: é inimaginável a cultura americana se a contribuição de intelectuais e artistas judeus expulsos da Europa pelo fascismo, foram os nazistas que os expulsaram, logo o fascismo não foi tão ruim assim. (Ninguém faz esse tipo de dedução a sério, mas há algo de silogismo sujo na defesa que se ouve de governos fortes, ou da ordem como a principal virtude de uma sociedade, mesmo com o sacrifício de direitos e liberdades. Há um silogismo sujo à espreita sempre que se procura justificar os excessos de um regime repressivo com supostas realizações do regime, em repetidas tentativas de rescrever ou absolver o passado. Como no Brasil.)
A diáspora africana nos deu o samba, o jazz e todos os ritmos caribenhos, certo. O fascismo, o comunismo e outros ismos persecutórios mandaram grandes cabeças e talentos para as Américas. Basta lembrar o caso dos Estados Unidos, onde gente como Saul Steinberg, Billy Wilder e Vladimir Nobokov, para citar poucos, não teria tido a experiência do exílio e da realização artística do desterro se não tivesse que fugir de Hitler, de Mussolini e dos bolcheviques. Mas, em vez da racionalização amora de um silogismo sujo para conter esse paradoxo, deve-se pensar nele como o efeito colateral da grande desarrumação da História. A História é explosiva, as explosões acabam com qualquer ideia de lógica ou simetria, logo vá entender.
Observações
- 1. Todo homem é mortal; eu sou homem; logo tchau. A conclusão decorre das premissas? Implicitamente, sim; e é cômica. Não explicitamente, porque “ser mortal” não implica estar morto ou morrendo imediatamente, o que justificaria o adeus (tchau).
- 2. O cômico “silogismo sujo” foi inicialmente exposto por Aristóteles em suas Refutações Sofísticas. São erros lógicos. Para Aristóteles há dois tipos desses erros: as falácias, erros não intencionais; e os sofismas, erros intencionais para iludir os outros. Os silogismos sujos seriam falácias ou sofismas? Veríssimo evita essa classificação para manter o cômico.
- 3. Não se pode confundir fascismo com nazismo, pois são ideologias que se sustentam em premissas diferentes. A doutrina fascista pode ser resumida no slogan “Tudo para o Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado”. Mussolini afirmava que o Estado cria a nação, não o inverso. Essa doutrina sustenta-se na noção de “identidade nacional”, de “caráter nacional”, que o Estado forja, produz, tornando cada pessoa nascida em seu território, independente de sua origem familiar, um membro da “comunidade nacional”. O fascismo opunha-se ativamente ao liberalismo político e econômico, que afirma a precedência das liberdades individuais; e aos socialistas que pretendiam realizar uma revolução social para modificar as relações econômicas.
- 4. O nazismo é o nome abreviado da corrente política nacional-socialismo, cujo partido denominava-se Partido Nacional Socialista Alemão dos Trabalhadores. A diretiva política central do programa desse partido afirma que só podem ser cidadãos alemães os que tenham “sangue alemão”, logo os judeus não podem ser cidadãos alemães, assim como os ciganos e outros. Os não alemães poderiam viver na Alemanha como hóspedes, submetendo-se à legislação para estrangeiros. Além disso, defendiam ser preciso impedir novas migrações de estrangeiros.
- 5. O nazismo compartilha a concepção fascista de Estado, acrescentando a “raça” como seu fundamento. Assim a “raça” alemã precede o seu Estado, mas este está corrompido pela presença de outras raças, logo precisa passar por uma faxina que o limpe das raças inferiores e pessoas com desvios (homossexuais e outros); o mesmo que limpeza étnica.
- 6. Em suma, as premissas dos argumentos fascista e nazista são diferentes. Para o fascismo, o Estado cria a nação; para o nazismo, a nação, produzida pela “terra e sangue” (raça), produz o Estado. Para o nazismo a mistura de raças enfraquece o Estado; para o fascismo, as distorções pessoais devem ser punidas para tornar o Estado superior e melhor, sem considerar, em princípio, a “raça”. Ambas as doutrinas confluem para a afirmação de o Estado ser o autor da vida social, e ele não pode ser democrático. Ambas as correntes opõem-se ao liberalismo e ao socialismo. Contra o primeiro, por afirmar que o Estado resulta das disputas pelos interesses particulares; contra o segundo, por julgar que a classe dos trabalhadores assalariados (proletariados) representa o futuro da vida social.
