O lugar das paixões na educação

Carlos da Fonseca Brandão organizou uma coletânea com o título deste post, com o subtítulo “uma abordagem teórica-metodológica”, pela editora Noa Harmonia (Nova Petrópolis, Rio Grande do Sul, 2011). Brandão, na Apresentação, assinala que as paixões não têm sido suficientemente exploradas no âmbito das ciências sociais e humanas, particularmente na Educação (Pedagogia). Para ele os capítulos da coletânea parecem, à primeira vista, muito específicos, mas elas “podem ser transformadas em questões muito amplas, de interesse de toda a sociedade”, isto porque são problemas para todos nós.Capítulos
  1. A prosa da dor: a aprendizagem de um instante preciso e violento da solidão; por Fernando Bárcena, p. 11-45.
  2. Histórica da educação e retórica: ethos e pathos como meios de prova; por Marcus Vinicius da Cunha, p. 46-95.
  3. 3. Sinta quem lê, ouve, vê, por Tarso Bonilha Mazzotti; p. 96-122.
  4. O homem e as paixões: sociedade e natureza; por Alonso Bezerra de Carvalho, p. 123-183.
  5. O controle das paixões nos processos de civilização; por Carlos da Fonseca Brandão, p. 184-218.

Resenha do Doutrinas pedagógicas, máquinas produtoras de litígios.

Autora: Laélia Portela Moreira
Educação e Filosofia Uberlândia, v. 25, n. 49, p. 331-336, jan./jun. 2011. ISSN 0102-6801


Resumo
Em mais de uma ocasião, e em variados escritos, Tarso Mazzotti enfatizou a importância do diálogo e do debate como parte constitutiva do fazer científico e demonstrou a importância da Teoria da Argumentação como ferramenta essencial ao exame das teorias e doutrinas pedagógicas. Podese seguramente identificar como algumas das principais características da filosofia da educação, praticada por este autor, o rigor na apresentação das idéias e construção dos argumentos, além do amplo espectro de temas que aborda. Seu último livro, Doutrinas pedagógicas: máquinas produtoras de litígio, é um testemunho da originalidade inerente ao seu pensamento, que focaliza, dessa feita, o exame de algumas doutrinas pedagógicas, as quais, a partir do século XVII, operam direta ou indiretamente nos discursos a respeito da educação escolar.

link para a publicação

http://www.seer.ufu.br/index.php/EducacaoFilosofia/article/view/13351/7640

Metodologia qualitativa versus quantitativa

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— Qual a diferença entre metodologia quantitativas e qualitativas?
— A diferença fundamental está na validação da inferência. Na quantitativa, a inferência válida atende os critérios de probabilidade estatística; na qualitativa, a validade decorre da plausabilidade: é provável que ocorra tal como descrito.
— Fiquei na mesma...
— A inferência é o procedimento que permite afirmar alguma coisa a respeito de eventos ou fenômenos. A forma geral mais divulgada é
O homem é mortal
Fulano é homwm
Logo, Fulano é mortal
— Mas isso é um silogismo!
— O silogismo é o nome grego para inferência. Como sei que “homem é mortal”?
— Por que todos morrem...
— Certo. Mas não conhecemos todos os homens que existiram e existirão, então seria melhor dizer que os que conhecemos até agora morreram ou morrerão. Seja como for, a premissa maior “homem é mortal” é uma afirmação, ou proposição, em que o sujeito é “homem” e o predicado nominal “é mortal”. Essa inferência sustenta-se na qualidade “mortal”, que julgamos ser uma propriedade do sujeito (homem). Não parece ser preciso quantificar ou verificar quantos são os casos de “mortal” para estabelecer aquela inferência plausível. Sabemos que somos mortais. Como sabemos? Está em nossa experiência coletiva. Nesse tipo de inferência não recorremos à contagem, nem aos cálculos de probabilidade para verificar se podemos generalizar o verificado para a população humana.
— Isso eu entendi; mas quando é preciso usar a contagem ou a estatística?
— Quanto uma
qualidade, medida de alguma maneira, não expressa imediatamente uma propriedade do sujeito (da frase, da premissa maior) ou quando for variável, quando pode ou não ocorrer.
— Um momento, quer dizer que se mede qualidade?
— Mede-se. Se a medida é adequada ou não é um tema importante para as pesquisas científicas.
Qualquer qualidade pode ser medida de alguma maneira. Por exemplo, quando dizemos Fulana é mais bonita do que Sicrana, usamos uma medida. Esta medida, por não ser análoga à uma escala de razão, é dita categorial, baseada em categorias, palavra de origem grega que tem o mesmo significado da latina predicado.
— Explique isso.
— Uma escala de razão ou proporção tem por base uma escala em que cada unidade é estável; cada número é perfeitamente proporcional a outro; parte de um zero definido como absoluto. É a que usamos no sistema métrico decimal, por exemplo. A medida categorial não tem essas propriedades, apenas diz que há tais e quais categorias, como “belo”, “menos belo” e “feio”, por exemplo.
— Tendo uma medida, pode-se fazer estatística...
— A medida determina qual estatística pode ser usada. Se for métrica, ou análoga à métrica, então podemos usar as estatísticas paramétricas; caso contrário, apenas as não-paramétricas. Por exemplo, os sistema de notas dos alunos ainda que utilize numerais não é paramétrico, é, quando muito, intervalar, ou seja tem intervalos iguais. Sendo assim, não se pode, rigorosamente, calcular a média das notas de um aluno ou do conjunto dos alunos, pois não é paramétrico. Pode-se contar quantos alunos obtiveram a notação 5, correspondente ao número que questões que acertou, para organizar uma escala de postos.
— Então a diferença não está na inferência, mas na medida?
— Está na inferência. A medida é a intensidade de uma qualidade que pode permitir ou não algum tipo de inferência estatística. Nas pesquisas ditas qualitativas infere-se sem recorrer aos procedimentos estatísticos, mesmo assim utilizam algum tipo de medida.
— Como assim?
— A medida, nas pesquisas ditas qualitativas, referem-se a certos aspectos da realidade, que são as qualidades que variam. Essa variação, no geral categorial, é investigada para se saber se ela é ou não relevante. Por exemplo, seria relevante o sexo do aluno quanto ao seu sucesso escolar? O sexo do aluno é algo dado, mas, em nossas sociedades, há normas de comportamento consideradas próprias dos homens e das mulheres. Então a questão é outra: o gênero dos alunos determina seu sucesso escolar? O que se está supondo? Que o gênero, ou os comportamentos consideradas corretos segundo o sexo em cada cultura, tem algum papel no fracasso dos alunos, por exemplo. A inferência é: uma vez que gênero define o lugar social, então o gênero do aluno deve determinar seu lugar na escola (sucesso ou fracasso). Nesse nível de análise não temos como saber se é assim ou não, sendo preciso realizar investigações que mostrem se aquela inferência mantém-se. A qualidade “gênero” varia segundo as diversas culturas, ela variaria nas escolas? Como saber? Por meio de pesquisas com as pessoas que trabalham e estudam nas escolas. Elas dirão se o gênero determina o fracasso ou o sucesso.
— Mas as pessoas dizem o que querem...
— É verdade. Por isso é preciso planejar uma pesquisa que permita verificar o que dizem ser o caso. Esse planejamento é o de uma pesquisa qualitativa, pois visa estabelecer se uma certa qualidade apresenta-se como algo perfeitamente definido, se é ambígua, se é dispersiva ou o que for. A pesquisa qualitativa tem por objetivo estabelecer qual a qualidade relevante em certos contextos. Uma vez estabelecida a qualidade e suas variações pode-se obter uma medida. Essa medida, se for uma escala de razão, o que é raríssimo em todas a ciências, então uma pesquisa estatística paramétrica poderá ser conduzida. Se não for uma escala de razão, pode-se utilizar as estatísticas não-paramétricas.
— Então não há uma diferença completa entre essas metodologias, pois na qualitativa busca-se determinar as qualidades que depois podem ser pesquisadas usando as metodologias quantitativas...
— Exatamente. Se o silogismo ou inferência for composto por enunciados que apresentam qualidades duvidosas, então é preciso verificar o caráter dessas qualidades, se elas são efetivamente diferentes, se não são uma variação de uma qualidade mais ampla, bem como se as variações são categoriais, ordinais, escalar ou se podem ser postas em uma escala de razão. Realizada essa tarefa, é factível uma pesquisa organizada em torno de modelos probabilísticos, como as estatísticas

Construtivismo 2

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Rigorosamente não é adequado utilizar o termo “construtivismo” para todo e qualquer tipo de conhecimento, uma vez que apenas os formais, os das lógicas e matemáticas, são construtivos. Nos conhecimentos formais há um encadeamento de enunciados que constituem um “edifício” conceitual. Não é factível aprender, por exemplo, funções sem antes dominar a teoria dos números e a geometria, uma vez que elas dependem destes conhecimentos.
No caso das demais ciências, tanto as naturais quanto as humanas, bem como os conhecimentos comuns (senso comum), o procedimento é reconstrutivo. Uma vez dito que há um fenômeno, o qual é definido pelo que se diz a seu respeito, o processo de conhecer visa reconstruir o verificado para o explicar. Para isso, os modelos ou metáforas permitem comparar o que se diz ser o fenômeno a conhecer com algo conhecido, transferindo-se significados de um para o outro. Uma vez estabelecidos os significados que se julga pertinentes à novidade, procura-se verificar se eles são efetivamente adequados ao que se apresenta. Reconstrói-se o fenômeno, se esse procedimento mostrar que a reconstituição é pertinente, então se diz que se obteve uma explicação.
A explicação, em seguida, pode ser apresentada como um encadeamento lógico, silogístico. Essa forma de apresentação tem por objetivo ensinar aos demais o que foi estabelecido por meio da reconstrução do fenômeno.
Assim, não parece correto utilizar a noção “construção social de conhecimentos” quando não se tratar de conhecimentos formais. O correto seria dizer “constituição social de conhecimentos”, pois assim se evitaria uma analogia imprópria como os processos próprios dos conhecimentos formais e os demais, que são reconstrutivos.

Silogismo sujo

Luiz Fernando Veríssimo publicou em O Globo de hoje sua opinião que tem por título “silogismo sujo”. Transcrevo-o abaixo, com algumas observações de minha autoria. O texto de Veríssimo é cômico, as observações não são.

Silogismos, nos diz o dicionário, é uma dedução pela qual duas premissas levam a uma terceira, ou a uma conclusão lógica. Por exemplo: todo homem é mortal, eu sou homem, logo tchau. O dicionário enumera vários tipos de silogismos, mas não inclui o que pode chamar de silogismo sujo —ou a dedução lógica a que leva a uma conclusão imoral, ou pervertida. Exemplo: se não fosse a influência da cultural negra a civilização ocidental seria muito mais sem graça —para não falar em sem ritmo e sem colorido— do que é, logo foi bom existirem a escravatura e a diáspora forçada de negros da África. Outro exemplo, ainda pior: é inimaginável a cultura americana se a contribuição de intelectuais e artistas judeus expulsos da Europa pelo fascismo, foram os nazistas que os expulsaram, logo o fascismo não foi tão ruim assim. (Ninguém faz esse tipo de dedução a sério, mas há algo de silogismo sujo na defesa que se ouve de governos fortes, ou da ordem como a principal virtude de uma sociedade, mesmo com o sacrifício de direitos e liberdades. Há um silogismo sujo à espreita sempre que se procura justificar os excessos de um regime repressivo com supostas realizações do regime, em repetidas tentativas de rescrever ou absolver o passado. Como no Brasil.)
A diáspora africana nos deu o samba, o jazz e todos os ritmos caribenhos, certo. O fascismo, o comunismo e outros ismos persecutórios mandaram grandes cabeças e talentos para as Américas. Basta lembrar o caso dos Estados Unidos, onde gente como Saul Steinberg, Billy Wilder e Vladimir Nobokov, para citar poucos, não teria tido a experiência do exílio e da realização artística do desterro se não tivesse que fugir de Hitler, de Mussolini e dos bolcheviques. Mas, em vez da racionalização amora de um silogismo sujo para conter esse paradoxo, deve-se pensar nele como o efeito colateral da grande desarrumação da História. A História é explosiva, as explosões acabam com qualquer ideia de lógica ou simetria, logo vá entender.

Observações
  • 1. Todo homem é mortal; eu sou homem; logo tchau. A conclusão decorre das premissas? Implicitamente, sim; e é cômica. Não explicitamente, porque “ser mortal” não implica estar morto ou morrendo imediatamente, o que justificaria o adeus (tchau).

  • 2. O cômico “silogismo sujo” foi inicialmente exposto por Aristóteles em suas Refutações Sofísticas. São erros lógicos. Para Aristóteles há dois tipos desses erros: as falácias, erros não intencionais; e os sofismas, erros intencionais para iludir os outros. Os silogismos sujos seriam falácias ou sofismas? Veríssimo evita essa classificação para manter o cômico.

  • 3. Não se pode confundir fascismo com nazismo, pois são ideologias que se sustentam em premissas diferentes. A doutrina fascista pode ser resumida no slogan “Tudo para o Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado”. Mussolini afirmava que o Estado cria a nação, não o inverso. Essa doutrina sustenta-se na noção de “identidade nacional”, de “caráter nacional”, que o Estado forja, produz, tornando cada pessoa nascida em seu território, independente de sua origem familiar, um membro da “comunidade nacional”. O fascismo opunha-se ativamente ao liberalismo político e econômico, que afirma a precedência das liberdades individuais; e aos socialistas que pretendiam realizar uma revolução social para modificar as relações econômicas.

  • 4. O nazismo é o nome abreviado da corrente política nacional-socialismo, cujo partido denominava-se Partido Nacional Socialista Alemão dos Trabalhadores. A diretiva política central do programa desse partido afirma que só podem ser cidadãos alemães os que tenham “sangue alemão”, logo os judeus não podem ser cidadãos alemães, assim como os ciganos e outros. Os não alemães poderiam viver na Alemanha como hóspedes, submetendo-se à legislação para estrangeiros. Além disso, defendiam ser preciso impedir novas migrações de estrangeiros.

  • 5. O nazismo compartilha a concepção fascista de Estado, acrescentando a “raça” como seu fundamento. Assim a “raça” alemã precede o seu Estado, mas este está corrompido pela presença de outras raças, logo precisa passar por uma faxina que o limpe das raças inferiores e pessoas com desvios (homossexuais e outros); o mesmo que limpeza étnica.

  • 6. Em suma, as premissas dos argumentos fascista e nazista são diferentes. Para o fascismo, o Estado cria a nação; para o nazismo, a nação, produzida pela “terra e sangue” (raça), produz o Estado. Para o nazismo a mistura de raças enfraquece o Estado; para o fascismo, as distorções pessoais devem ser punidas para tornar o Estado superior e melhor, sem considerar, em princípio, a “raça”. Ambas as doutrinas confluem para a afirmação de o Estado ser o autor da vida social, e ele não pode ser democrático. Ambas as correntes opõem-se ao liberalismo e ao socialismo. Contra o primeiro, por afirmar que o Estado resulta das disputas pelos interesses particulares; contra o segundo, por julgar que a classe dos trabalhadores assalariados (proletariados) representa o futuro da vida social.